sábado, 29 de novembro de 2008

Peguei o Espírito da Coisa!

Tá vendo, ali, na estante, aquela garrafa com uma fumacinha azul dentro?
É ele...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Um dia

Tem dia que o céu o saúda mais azul, as coisas dotadas de mais cor, melodia ou movimento.
E tem dia que, por mais que o sol teime em brilhar, uma névoa permanece, invencível, talvez invisível, porém sensível. Como se o ar carregasse o ranço das gerações.
Nesses dias, pode sentir por vezes um cansaço imenso, como se lhe pesassem as idéias e história que insistem em se repetir (sendo por isso mesmo, feliz ou infelizmente, perdoadas).
Mas, tem dias em que ele pode celebrar sua majestade, dominando cada vez um pouco mais do mundo, ou comemorar sua alforria cavalgando o tempo sem sela nem cabresto.
O que lhe conforta ou excita é sua única certeza:

Um dia ele morre.

Rapidinha

Agora se sentia verdadeiramente um homem: Já teve um carnê das Casas Bahia, o nome no Serasa e lhe despontava uma discreta barriga de cerveja.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Apenas uma boa combinação

Estava em casa de meu tio, assistindo clipes e trocando idéias.
Sobre um dos clipes, comentei que a música era muito boa, e que apesar da banda não apresentar nenhum virtuosismo, todos os elementos (simples) da composição eram bem combinados. De fato, essa é uma coisa da qual gosto muito em música.

Tudo bem, seria uma infâmia alguém que aprendeu a gostar de música com os titios do Deep Purple dizer que não sabe apreciar uma boa virtuose. Meu Deus... O que era aquele Jon Lord duelando com o Blackmore? Os solos de Highway Star, então... Aquilo é o êxtase!

Mas na vida tem hora para tudo. A simplicidade de algumas coisas me faz sentir menos pequeno, menos inútil. Gosto de Joe Satriani, mas ouvi-lo me dá vontade de quebrar meu violão e pular da janela do décimo terceiro andar (acho que é por minha causa que até hoje a vó não tirou as telas de proteção das janelas). Já o Nando Reis, por exemplo, não. O cara -não desfazendo, por favor, mas convenhamos - toca um violão meia boca (tem hífen aqui, será?), além do simples fato de que ele é desafinado cantando. Mas faz um som bacana... Tem ótimas idéias, e sabe combiná-las em um bom conjunto. Ele é o tipo de pessoa que me dá esperança de um dia tocar por aí, quiçá até gravar alguma coisa.

Existem obras que nos inspiram e mostram até onde podemos chegar, mas também existem aquelas cujo papel é o de nos fazer sentir maiores. É mais ou menos como olhar o David do Michaelangelo, com seu pipizinho, e achar que eu sou o cara mais foda do mundo.

domingo, 20 de julho de 2008

Atraso

As crianças conversavam na varanda. Crianças que não se sabiam mais crianças, que tinham vergonha de fazer coisas de criança. Crianças que queriam decobrir o que mais na vida se pode fazer.

No quarto próximo, o velho andava em direção ao banheiro, com a tranqüilidade de quem já viu muita coisa, com a resignação de quem sabe o quão pouco poderá ver, não importa quanto tempo mais tenha.

Timidamente, as crianças conversavam, buscando desesperadamente assuntos, embora ambos preferissem o silêncio naquela hora. Até que a mão do menino se pôs sobre a da menina. Ela teve a imensa coragem de sorrir, quando nenhum assunto mais era necessário. A única vontade era que aquele momento durasse para sempre.

Terminada a evacuação, o velho escarrou satisfeito no vaso. O ato o fez pensar em uma cereja colocada em cima de um bolo, um fino adorno para uma bela obra.

O segundo de silêncio foi quebrado pelo som da descarga acionada. A menina, arisca, puxou o braço num susto, e a mão do menino sentiu um choque ao encontrar somente o frio do mármore do beiral onde se apoiavam. Nenhuma palavra foi dita sobre o assunto que as crianças se esforçavam para entender.

Somente os anjos testemunhavam toda a cena, somente eles poderiam contar quanto tempo levaria para que aquelas mãos pudessem se encontrar novamente. Sim, ninguém poderia sequer imaginar tal história senão eles, que então cuidavam do menino que fugia para a cozinha com a desculpa da sede, da menina que embaraçada desembaraçava os cabelos, e do velho que avançava vagaroso pelo corredor, coçando seu traseiro tranqüilo e resignado.

domingo, 1 de junho de 2008

Quem sou eu?

Se sou a energia que me compõe - em constante troca com o meio, incessante renovação - eu já não sou quem era.
Se sou a somatória de meus pensamentos - os infantis agora abandonados, os atuais o serão quando eu perceber sua futilidade - eu já não sou o mesmo.
Se sou o resultado de meus atos - vale o mesmo critério dos sonhos, semente das ações - eu nunca mais serei quem fui.

Se não consegui me conhecer, conseqüentemente me entender, em uma forma velha e manjada, que direi agora, deste desconhecido recém-nascido que me encara através do espelho embaçado?

domingo, 18 de maio de 2008

Agenda

Seus compromissos eram anotados em qualquer pedaço de papel que tivesse à mão, ou no braço. Geralmente conseguia se lembrar dos mais importantes.
Filmes interessantes permaneciam nas prateleiras da locadora, pois seus títulos estavam escritos em cantos de folhas de caderno lotadas de matéria da faculdade.
As pessoas para quem queria ligar ficavam só na intenção, pois devido à sua displicência, os nomes e números foram tratados da mesma forma que os filmes e compromissos.
Um dia, resolveu tomar jeito. Comprou uma agenda.
Ela ainda está lá, em algum lugar de seu quarto, entre folhas soltas e picotadas, todas cheias de nomes, títulos, telefones e horários.

sábado, 17 de maio de 2008

Ele nunca saberia

Ele nunca saberia o quanto ela esperou que ele ligasse naquele dia.
Nunca poderia saber do quanto ela pensou nele nos últimos dias. Um pequeno sentimento, bem pequeno mesmo, mas que brilhava como um ponto de luz num quarto escuro.
Seu rosto foi tomado por ela, e emprestado às mais vagas esperanças que ainda insistia em cultivar.
Não, ele jamais saberia o quanto ela teve vergonha só de pensar em recebê-lo em sua casa simples, não obstante fosse confortável e digna.
O quanto ela teve vergonha de si mesma, de suas roupas e de suas maneiras, não obstante se soubesse bela e elegante.
Ele nunca saberia o quanto custou a ela não beber aquela garrafa de vinho com alguma amiga, ou amigo, talvez mesmo um amante. Ela sabia que só teria dinheiro para comprar outra dali a alguns dias, e queria beber aquela garrafa com ele.
E naquele dia ele não ligou. Ela passou a noite sozinha em sua casa, não bebeu o vinho com ninguém e não amou a ninguém.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Adolescente

A todas vocês que me amam, mas estão esperando que eu amadureça: tirem o cavalinho da chuva. Vou ser adolescente até os 65 anos!
Como? Porque 65? Ah... Aí eu vou virar idoso. É, sim. Atendimento preferencial, andar de ônibus de graça, essas coisas. Eu gosto de uma mordomia mesmo.
Aliás... Tive uma idéia melhor: não vou virar idoso, não. Mas é claro que vou disfarçar muito bem, vou enganar direitinho, para ter todos os benefícios. Mas vou continuar adolescente!
Levar minha gata com carinha de uva passa para conhecer toda a cidade. Pegar todas as linhas de ônibus que tiver. E tomara que tenha uma dessas pessoas bem sem educação, dessas que não dão o lugar para as senhoras idosas, gestantes e afins, só para eu arrumar uma confusão!
Também vou aproveitar que, quando um velhinho fala, o povo ouve (bem, alguns poucos, eu sei, mas é melhor do que agora, que me mandam calar a boca, me batem, me expulsam dos lugares, essas coisas), e vou aloprar. Contar um monte de história que ninguém tem saco de ouvir, zoar o mulherio, ensinar muita bobagem para a molecada.
E quando eu me aposentar, não vou ficar trabalhando, não, mas também não quero ficar morrendo de tédio. Acho que vou me dedicar a algum instrumento... Violão, ou guitarra, que eu arranho um pouquinho, talvez outra coisa que der vontade.
É... Com 65 anos eu vou é ter uma banda de rock, isso sim...

*Fica aqui o devido crédito à "Marys", que de um comentário banal me deu a idéia desse texto.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Inquietação

Quantos anos tinha o menino? Cinco? Seis? Não sei ao certo.
Naquela época ele viajava freqüentemente com a família. Tinha praia todo ano, e volta e meia iam a uma minúscula cidade do interior do Paraná, ainda hoje cheia de parentes.
E o menino, que era acostumado a olhar o céu - seu avô lhe ensinava o nome das constelações - ficava maravilhado com o que via nas viagens. As luzes da cidade grande em que vivia ofuscavam a maior parte das estrelas, então o céu que ele via quando estavam na estrada lhe aparecia maravilhoso, salpicado de milhares de pontos luminosos e delicadas nuances que sua mãe lhe apontava como a Via-Láctea e nebulosas distantes.
Em uma das vezes em que estavam indo para o interior, o menino estava deitado no banco de trás do carro, a mãe ao seu lado, e ele olhava o céu noturno pela janela.
Então ele começou a chorar.
Quando sua mãe lhe perguntou o motivo do choro, o menino respondeu que era porque não conseguia entender como o Universo podia ser infinito. Ele simplesmente não conseguia formar em sua mente uma imagem para isto. A mãe lhe disse algo, ele chorou mais um pouco e logo se acalmou.
Ainda hoje eu o vejo. Nesses anos, o menino aprendeu a não chorar porque não consegue entender algumas coisas. Aprendeu a disfarçar com um sorriso a sua inquietação.
Mas eu o conheço como poucos, e sei que ele não está contente. Nunca esteve. Nunca se satisfez com nada do que lhe deram. Brinquedos, amor, respostas.
Acho que ele só estará satisfeito no dia em que todo o infinito do Universo couber em seu pensamento, no dia em que ele próprio se tornar do tamanho da Vida.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Amor

Num dia qualquer, observo um jovem casal no ônibus. Não me lembro bem, linha 308, talvez.
Estamos na avenida Tiradentes, um dos principais pontos de prostituição na cidade. Nesses arredores, é puta a toda hora. Puta de noite, puta de tarde, puta na hora do almoço... Coisa linda a organização das meninas.
Embora, devo confessar que falha um pouco. Sete da manhã? Porque não tem ninguém lá? Ora... Essas vontades não têm muita hora, e tem gente que não tem dinheiro para ficar indo em zona!
Mas, oquêi, voltemos ao casal... A menina observa uma das trabalhadoras, pensa um pouco e começa:
-Sabe, amor, eu fico pensando... Esse negócio de ficar com uma puta...- fala bem pausadamente - Ah, assim, sabe, você ficar sabendo que está pagando... Não deve ser, assim, meio estranho?
Acho que ele não pensa muito para responder:
-Ah, amor... É que nem com você... Só que beeem mais barato!
-Idiota!
Um tapa no braço e nem eu, nem ele seguramos o riso.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

My brother Charles e uma crise de identidade

O Charles é um cara que conheci ainda no colégio. Naquela época eu desenhava bastante, e ele virou praticamente meu portfólio ambulante, ao tatuar uns três desenhos que eu tinha feito.
Bem, mas não é isso que importa agora. O negócio é que o Charles freqüentemente usa boné, tem um par de óculos de aro grosso, preto, e um espesso conjunto de costeletas e cavanhaque... Ah! Fora o alargador na orelha. Mas ele é gente boa!
Agora que já foram mais ou menos apresentados, lá estava eu andando alegremente pelo centro da cidade, quando vejo um figura com essas características (Tinha alargador também? Agora não sei...). Na dúvida, chamei - se olhar, é ele!
Não é que o cara não só olhou, como parou e ficou olhando. Dei uns cinco passos em direção a ele, o suficiente para que minha miopia e astigmatismo me permitissem ver que não era o Charles... Gesticulei sei-lá-o-quê, o outro entendeu a confusão e seguimos nossos caminhos.
Dias depois, encontro o Charles (o original, dessa vez) no bar e, ao contar-lhe o caso, fico sabendo que mais uns dois colegas lhe contaram história semelhante.
Bem, se três contaram, imagino que mais um ou dois devem ter passado por tal situação, só ainda não encontraram o verdadeiro para lhe relatar.
Então começo a entender porque o carinha olhou e parou quando chamei. De tanto o chamarem de Charles, o coitado deve estar começando a se perguntar se é ou não o próprio.
Tenho dó dessa gente doida.

sábado, 5 de abril de 2008

Diálogo Brasileiro II

Agora a discussão é sobre sentenças emitidas de forma automática... Algumas vezes acabam saindo até inapropriadamente, como se segue:
Depois de ficar devendo cinco centavos na padaria, vou ao CIEE ver se tem alguma vaga de estágio. Em seu guichê, a loira natural verifica as vagas disponíveis, uma delas adequada para mim. Peço a carta de encaminhamento à empresa.
Em instantes a carta está impressa, chega quentinha à minha mão. Enquanto me levanto, sem dizer nada, sai a sua despedida semi-pronta:
-Obrigado você, e boa sorte!
Em uma fração de segundo a tensão no ar poderia ser apalpada, enquanto reflito que, nessa altura do campeonato, se eu disser "obrigado" provavelmente ela se dará conta da pequena gafe. Não digo. Fico só no "bom trabalho", o mesmo que, saindo, ao passar pela recepção, disparo novamente à outra loira:
-Bom trabalho!
-Obrigado você, boa sorte!

Marasmo

O menino, a barba por fazer
violão gemendo algo
a tia velha reclama do barulho
mais um ponto no crochê

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Diálogo brasileiro

Porque, quando faltam alguns centavos em determinadas transações quotidianas, quase que invariavelmente quem está pagando pede para "ficar devendo", mesmo que as duas partes saibam muito bem que nunca será paga essa diferença?
Mais ou menos assim:
Subindo o calçadão pela manhã, indo procurar trabalho, resolvo gastar os vinte e cinco centavos que tenho no bolso com um cigarro.
Reparem na padaria que eu entro: Calçadão de Londrina, sei lá quantas pessoas comprando coisas todos os dias, e eu mesmo lá mais ou menos umas duas vezes por ano.
A loira oxigenada do caixa, sem levantar os olhos para mim:
-Pois não?
-Bom dia!
-Bom dia.
-Me vende um cigarro solto?
Me põe sobre o balcão uma caixinha com algumas marcas. Enquanto pego um, pergunto:
-Vinte e cinco?
-Trinta.
-Faz vinte e cinco?
-Você vai ficar me devendo cinco, porque é trinta.
-Oquêi, - Acendo com um isqueiro acorrentado ao balcão - obrigado!
E saio, num trago.