quinta-feira, 24 de abril de 2008

Inquietação

Quantos anos tinha o menino? Cinco? Seis? Não sei ao certo.
Naquela época ele viajava freqüentemente com a família. Tinha praia todo ano, e volta e meia iam a uma minúscula cidade do interior do Paraná, ainda hoje cheia de parentes.
E o menino, que era acostumado a olhar o céu - seu avô lhe ensinava o nome das constelações - ficava maravilhado com o que via nas viagens. As luzes da cidade grande em que vivia ofuscavam a maior parte das estrelas, então o céu que ele via quando estavam na estrada lhe aparecia maravilhoso, salpicado de milhares de pontos luminosos e delicadas nuances que sua mãe lhe apontava como a Via-Láctea e nebulosas distantes.
Em uma das vezes em que estavam indo para o interior, o menino estava deitado no banco de trás do carro, a mãe ao seu lado, e ele olhava o céu noturno pela janela.
Então ele começou a chorar.
Quando sua mãe lhe perguntou o motivo do choro, o menino respondeu que era porque não conseguia entender como o Universo podia ser infinito. Ele simplesmente não conseguia formar em sua mente uma imagem para isto. A mãe lhe disse algo, ele chorou mais um pouco e logo se acalmou.
Ainda hoje eu o vejo. Nesses anos, o menino aprendeu a não chorar porque não consegue entender algumas coisas. Aprendeu a disfarçar com um sorriso a sua inquietação.
Mas eu o conheço como poucos, e sei que ele não está contente. Nunca esteve. Nunca se satisfez com nada do que lhe deram. Brinquedos, amor, respostas.
Acho que ele só estará satisfeito no dia em que todo o infinito do Universo couber em seu pensamento, no dia em que ele próprio se tornar do tamanho da Vida.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Amor

Num dia qualquer, observo um jovem casal no ônibus. Não me lembro bem, linha 308, talvez.
Estamos na avenida Tiradentes, um dos principais pontos de prostituição na cidade. Nesses arredores, é puta a toda hora. Puta de noite, puta de tarde, puta na hora do almoço... Coisa linda a organização das meninas.
Embora, devo confessar que falha um pouco. Sete da manhã? Porque não tem ninguém lá? Ora... Essas vontades não têm muita hora, e tem gente que não tem dinheiro para ficar indo em zona!
Mas, oquêi, voltemos ao casal... A menina observa uma das trabalhadoras, pensa um pouco e começa:
-Sabe, amor, eu fico pensando... Esse negócio de ficar com uma puta...- fala bem pausadamente - Ah, assim, sabe, você ficar sabendo que está pagando... Não deve ser, assim, meio estranho?
Acho que ele não pensa muito para responder:
-Ah, amor... É que nem com você... Só que beeem mais barato!
-Idiota!
Um tapa no braço e nem eu, nem ele seguramos o riso.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

My brother Charles e uma crise de identidade

O Charles é um cara que conheci ainda no colégio. Naquela época eu desenhava bastante, e ele virou praticamente meu portfólio ambulante, ao tatuar uns três desenhos que eu tinha feito.
Bem, mas não é isso que importa agora. O negócio é que o Charles freqüentemente usa boné, tem um par de óculos de aro grosso, preto, e um espesso conjunto de costeletas e cavanhaque... Ah! Fora o alargador na orelha. Mas ele é gente boa!
Agora que já foram mais ou menos apresentados, lá estava eu andando alegremente pelo centro da cidade, quando vejo um figura com essas características (Tinha alargador também? Agora não sei...). Na dúvida, chamei - se olhar, é ele!
Não é que o cara não só olhou, como parou e ficou olhando. Dei uns cinco passos em direção a ele, o suficiente para que minha miopia e astigmatismo me permitissem ver que não era o Charles... Gesticulei sei-lá-o-quê, o outro entendeu a confusão e seguimos nossos caminhos.
Dias depois, encontro o Charles (o original, dessa vez) no bar e, ao contar-lhe o caso, fico sabendo que mais uns dois colegas lhe contaram história semelhante.
Bem, se três contaram, imagino que mais um ou dois devem ter passado por tal situação, só ainda não encontraram o verdadeiro para lhe relatar.
Então começo a entender porque o carinha olhou e parou quando chamei. De tanto o chamarem de Charles, o coitado deve estar começando a se perguntar se é ou não o próprio.
Tenho dó dessa gente doida.

sábado, 5 de abril de 2008

Diálogo Brasileiro II

Agora a discussão é sobre sentenças emitidas de forma automática... Algumas vezes acabam saindo até inapropriadamente, como se segue:
Depois de ficar devendo cinco centavos na padaria, vou ao CIEE ver se tem alguma vaga de estágio. Em seu guichê, a loira natural verifica as vagas disponíveis, uma delas adequada para mim. Peço a carta de encaminhamento à empresa.
Em instantes a carta está impressa, chega quentinha à minha mão. Enquanto me levanto, sem dizer nada, sai a sua despedida semi-pronta:
-Obrigado você, e boa sorte!
Em uma fração de segundo a tensão no ar poderia ser apalpada, enquanto reflito que, nessa altura do campeonato, se eu disser "obrigado" provavelmente ela se dará conta da pequena gafe. Não digo. Fico só no "bom trabalho", o mesmo que, saindo, ao passar pela recepção, disparo novamente à outra loira:
-Bom trabalho!
-Obrigado você, boa sorte!

Marasmo

O menino, a barba por fazer
violão gemendo algo
a tia velha reclama do barulho
mais um ponto no crochê

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Diálogo brasileiro

Porque, quando faltam alguns centavos em determinadas transações quotidianas, quase que invariavelmente quem está pagando pede para "ficar devendo", mesmo que as duas partes saibam muito bem que nunca será paga essa diferença?
Mais ou menos assim:
Subindo o calçadão pela manhã, indo procurar trabalho, resolvo gastar os vinte e cinco centavos que tenho no bolso com um cigarro.
Reparem na padaria que eu entro: Calçadão de Londrina, sei lá quantas pessoas comprando coisas todos os dias, e eu mesmo lá mais ou menos umas duas vezes por ano.
A loira oxigenada do caixa, sem levantar os olhos para mim:
-Pois não?
-Bom dia!
-Bom dia.
-Me vende um cigarro solto?
Me põe sobre o balcão uma caixinha com algumas marcas. Enquanto pego um, pergunto:
-Vinte e cinco?
-Trinta.
-Faz vinte e cinco?
-Você vai ficar me devendo cinco, porque é trinta.
-Oquêi, - Acendo com um isqueiro acorrentado ao balcão - obrigado!
E saio, num trago.