domingo, 18 de maio de 2008

Agenda

Seus compromissos eram anotados em qualquer pedaço de papel que tivesse à mão, ou no braço. Geralmente conseguia se lembrar dos mais importantes.
Filmes interessantes permaneciam nas prateleiras da locadora, pois seus títulos estavam escritos em cantos de folhas de caderno lotadas de matéria da faculdade.
As pessoas para quem queria ligar ficavam só na intenção, pois devido à sua displicência, os nomes e números foram tratados da mesma forma que os filmes e compromissos.
Um dia, resolveu tomar jeito. Comprou uma agenda.
Ela ainda está lá, em algum lugar de seu quarto, entre folhas soltas e picotadas, todas cheias de nomes, títulos, telefones e horários.

sábado, 17 de maio de 2008

Ele nunca saberia

Ele nunca saberia o quanto ela esperou que ele ligasse naquele dia.
Nunca poderia saber do quanto ela pensou nele nos últimos dias. Um pequeno sentimento, bem pequeno mesmo, mas que brilhava como um ponto de luz num quarto escuro.
Seu rosto foi tomado por ela, e emprestado às mais vagas esperanças que ainda insistia em cultivar.
Não, ele jamais saberia o quanto ela teve vergonha só de pensar em recebê-lo em sua casa simples, não obstante fosse confortável e digna.
O quanto ela teve vergonha de si mesma, de suas roupas e de suas maneiras, não obstante se soubesse bela e elegante.
Ele nunca saberia o quanto custou a ela não beber aquela garrafa de vinho com alguma amiga, ou amigo, talvez mesmo um amante. Ela sabia que só teria dinheiro para comprar outra dali a alguns dias, e queria beber aquela garrafa com ele.
E naquele dia ele não ligou. Ela passou a noite sozinha em sua casa, não bebeu o vinho com ninguém e não amou a ninguém.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Adolescente

A todas vocês que me amam, mas estão esperando que eu amadureça: tirem o cavalinho da chuva. Vou ser adolescente até os 65 anos!
Como? Porque 65? Ah... Aí eu vou virar idoso. É, sim. Atendimento preferencial, andar de ônibus de graça, essas coisas. Eu gosto de uma mordomia mesmo.
Aliás... Tive uma idéia melhor: não vou virar idoso, não. Mas é claro que vou disfarçar muito bem, vou enganar direitinho, para ter todos os benefícios. Mas vou continuar adolescente!
Levar minha gata com carinha de uva passa para conhecer toda a cidade. Pegar todas as linhas de ônibus que tiver. E tomara que tenha uma dessas pessoas bem sem educação, dessas que não dão o lugar para as senhoras idosas, gestantes e afins, só para eu arrumar uma confusão!
Também vou aproveitar que, quando um velhinho fala, o povo ouve (bem, alguns poucos, eu sei, mas é melhor do que agora, que me mandam calar a boca, me batem, me expulsam dos lugares, essas coisas), e vou aloprar. Contar um monte de história que ninguém tem saco de ouvir, zoar o mulherio, ensinar muita bobagem para a molecada.
E quando eu me aposentar, não vou ficar trabalhando, não, mas também não quero ficar morrendo de tédio. Acho que vou me dedicar a algum instrumento... Violão, ou guitarra, que eu arranho um pouquinho, talvez outra coisa que der vontade.
É... Com 65 anos eu vou é ter uma banda de rock, isso sim...

*Fica aqui o devido crédito à "Marys", que de um comentário banal me deu a idéia desse texto.