As crianças conversavam na varanda. Crianças que não se sabiam mais crianças, que tinham vergonha de fazer coisas de criança. Crianças que queriam decobrir o que mais na vida se pode fazer.
No quarto próximo, o velho andava em direção ao banheiro, com a tranqüilidade de quem já viu muita coisa, com a resignação de quem sabe o quão pouco poderá ver, não importa quanto tempo mais tenha.
Timidamente, as crianças conversavam, buscando desesperadamente assuntos, embora ambos preferissem o silêncio naquela hora. Até que a mão do menino se pôs sobre a da menina. Ela teve a imensa coragem de sorrir, quando nenhum assunto mais era necessário. A única vontade era que aquele momento durasse para sempre.
Terminada a evacuação, o velho escarrou satisfeito no vaso. O ato o fez pensar em uma cereja colocada em cima de um bolo, um fino adorno para uma bela obra.
O segundo de silêncio foi quebrado pelo som da descarga acionada. A menina, arisca, puxou o braço num susto, e a mão do menino sentiu um choque ao encontrar somente o frio do mármore do beiral onde se apoiavam. Nenhuma palavra foi dita sobre o assunto que as crianças se esforçavam para entender.
Somente os anjos testemunhavam toda a cena, somente eles poderiam contar quanto tempo levaria para que aquelas mãos pudessem se encontrar novamente. Sim, ninguém poderia sequer imaginar tal história senão eles, que então cuidavam do menino que fugia para a cozinha com a desculpa da sede, da menina que embaraçada desembaraçava os cabelos, e do velho que avançava vagaroso pelo corredor, coçando seu traseiro tranqüilo e resignado.
domingo, 20 de julho de 2008
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2 comentários:
Romântico hein?
Sujo e poético. Gostei muito da comparação com a cereja.
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